Crueldade: Laços que Estrangulam

    


    Mudaram-se as armas, sofisticaram-se os discursos, refinaram-se as justificativas, mas a essência continua a mesma: a crueldade.

    A história da humanidade se mostrou como um grande repertório de conquistas, evoluções e descobertas, mas uma coisa sempre persistiu silenciosamente; às vezes ao olhar de todo o mundo, às vezes no secreto. A maldade do “homem” germinou como uma erva daninha danosa para si própria e, com ela, vieram as guerras, massacres, genocídios e sistemas políticos inteiros repletos de corrupção.

    Os tempos não mudaram, apenas se adaptaram aos termos da contemporaneidade, ou seja, a violência não desapareceu; ela apenas se moldou conforme o terreno. E, talvez a forma mais perturbadora da violência se caracterize por sua origem; dentro das casas e fora dos campos de batalha, nos espaços onde deveria existir proteção, afeto e segurança, hoje prevalece a morte.

    E é baseada nisso que acredito que o feminicídio se revela como uma das muitas expressões cruas e paradoxais da brutalidade humana, já que, diferente da violência entre países inimigos por religião ou por disputas territoriais, ou do embate entre rivais, a agressão nasce dentro de um vínculo que até então era considerado amor. E, sendo sincera, acredito que, inicialmente, muitos dos casos de feminicídio se iniciam por outros crimes à vida, como violência doméstica, stalking, ameaça, injúria ou calúnia e muitos outros.

    Há memórias, laços e sentimentos neste abismo. Em um certo ponto, as memórias são esquecidas, os laços são destruídos e os sentimentos. Bom… eles mudam. Aquele vínculo intenso se perde gradualmente para uma posse violenta e uma perspectiva deturpada do que seja a realidade.

    O caso recente de Juliana Guaraldi, que aconteceu na Bahia, expõe com uma clareza dolorosa essa questão. Aos 39 anos, a mulher foi encontrada morta dentro da própria casa, em circunstâncias que apontam para um crime violento: o corpo seminu, com sinais de estrangulamento, e indícios de que houve sofrimento antes do fim. 

    A transição não se iniciou em sua morte, mas na sua jornada para ela. Discussões, tensões, rupturas na comunicação, tudo isso a levou para aquele fatídico dia. Os portais de notícia afirmaram que o último contato da vítima com familiares aconteceu dias antes do corpo ser encontrado. Paralelamente, o principal suspeito — alguém com quem ela mantinha ou havia mantido uma relação — apresentava comportamentos contraditórios, versões confusas, tentativas de manipular a narrativa. Após o crime, ele ainda negou envolvimento publicamente, antes de ser encontrado morto, em um aparente suicídio, encerrando a possibilidade de responsabilização direta.

    O roteiro de vida de Juliana não é a exceção, é a realidade de uma sociedade cruel. Apesar de tantos pesares e acontecimentos inescrupulosos, a estrutura permanece.

    Do convívio. Da intimidade. Da confiança emerge a traição e a morte.

    Juliana não foi a única vítima da crueldade e insanidade humana; Sarah Tinoco perdeu os dois filhos em uma ação homicida do próprio marido, que se matou após o ato brutal. O crime em questão foi classificado pela Justiça como vicaricídio, que é um termo usado para tipificar o assassinato de parentes ou pessoas próximas a uma mulher, com o objetivo de causar-lhe sofrimento psicológico.

    Segundo as informações do caso, os dois filhos de Sarah estavam dormindo quando o então companheiro desabafou nas redes sociais sobre problemas no casamento e até um possível divórcio, e logo depois entrou no quarto daqueles que tinham o mesmo sangue e carregavam o mesmo nome para matá-los de modo frio e rápido. 

    Um tiro. Na cabeça. O mais velho não resistiu; já o mais novo chegou a ir ao hospital em estado grave, mas não chegou a aguentar as primeiras 24 horas.

    Difícil admitir, mas a crueldade vem daqueles que menos desconfiamos. Não é o desconhecido que nos mata, mas são aqueles que conhecemos, que, em algum ponto quase imperceptível, deixam de nos enxergar com amor e passam a nos olhar com frieza. Um instante se torna o eterno momento e, quando menos esperarmos, a morte é planejada e nossa lápide é entalhada.

    No fim, talvez a diferença entre a casa e a guerra não seja a essência, mas sim, a escala. Porque, enquanto a violência continuar sendo tolerada em sua forma mais íntima, ela continuará encontrando caminhos para crescer, até que não reste mais nenhum lugar seguro, nem dentro de casa e nem fora dela.


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