Oriente Médio - uma guerra sem fronteiras

É difícil dizer se o mundo atual conseguiria viver sem guerras. O tempo conhecido pelas nações tem as batalhas como fundamento do sentido humano; não há surpresas em dias que haja valas repletas de corpos ou bombardeios repentinos. Essa se tornou uma característica do DNA da sociedade mundial.

A mídia não se cala, e evidentemente a guerra em alta e provavelmente a mais complexa e importante dos dias atuais tem acontecido no Oriente Médio.


Mas você sabe o que tem acontecido lá? Entende o porquê desse conflito ser importante? 


Em poucas palavras: toda a desestrutura do Oriente Médio, que se replica no derramamento de sangue, tem repercutido no mundo. Países do Ocidente estão sentindo na pele o que haviam esquecido: uma guerra de larga escala causa nos setores internos de uma nação danos que podem ser irreparáveis.


Os Estados Unidos e o Irã têm um histórico de intrigas, que até então tinham se restringido aos seus territórios, mas, no momento em que a troca de bombardeios e o apelo geográfico por parte do governo iraniano aconteceram, tudo mudou.


EUA x Irã: o conflito que o mundo vê


Houve um tempo; uma era, em que o poder iraniano era dominado pelos Xá’s, onde o Irã e os Estados Unidos caminhavam lado a lado, sem rachaduras no relacionamento diplomático.

Mas, com o tempo, a população iraniana começou a perceber que talvez todos os acordos comerciais e diplomáticos não fossem tão benéficos assim para seu país. Diversas manifestações aconteceram e o governo da época não estava conseguindo lidar com a arma mais poderosa de uma nação: um povo descontente.

As tensões se acumularam e, como uma coisa sempre leva a outra, uma revolução tomou conta do país iraniano e mudou o curso que o Irã estava e viria a percorrer.

Em 1979, aconteceu a Revolução Islâmica, que derrubou o regime dos Xá’s e encerrou uma era. O então governante, Mohammed Reza Pahlavi, deixou o Irã sem conseguir conter a força das ruas. E em seu lugar surgiu uma nova liderança, guiada por princípios religiosos e profundamente crítica à influência ocidental.

Até então, o mundo encarou a situação como uma evolução qualquer, que todo país viria a experimentar. Aconteceu nas Américas, na Europa… então também viria a acontecer com o Oriente Médio, não?

O que o Ocidente não esperava é que a proclamação da República Islâmica transformasse radicalmente o cenário político da região. E, como um de seus primeiros atos, a embaixada dos Estados Unidos, sediada em Teerã, foi invadida e diplomatas norte-americanos foram feitos reféns por 444 dias.

Renasceu o sentimento que há muito tempo havia se perdido. Uma rachadura. Uma rivalidade que duraria décadas emergiu das cinzas, e agora as chamas voltariam a queimar.

Os anos seguintes foram marcados por uma sucessão de hostilidades. Sanções econômicas, discursos inflamados, disputas indiretas e apoio a lados opostos em conflitos regionais ampliaram a distância entre Irã e os Estados Unidos. 

Cada decisão tomada por um lado parecia aprofundar ainda mais o abismo que os separava.

Ainda assim, um lampejo de esperança e misericórdia sobrevoava ambas as populações, e, em 2015, durante o governo de Barack Obama, foi firmado um acordo nuclear entre o Irã e as grandes potências mundiais da época. O pacto buscava limitar o programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções econômicas que sufocavam o país havia anos.

Em 2018, as coisas desandaram quando Donald Trump, ao assumir o poder, deixou o acordo nuclear, alegando que o Irã ultrapassou os limites firmados e que o país havia se declarado apoiador de grupos terroristas como Hamas e Hezbollah — que mais para frente seriam essenciais para o sentido atual da humanidade.

Sanções voltaram a ser impostas. E, em 2025, os Estados Unidos realizaram ataques contra instalações nucleares iranianas, que se sucederam, um ano depois, a um segundo ataque, dessa vez com o apoio de Israel.

O Irã respondeu à altura e começou a bombardear instalações militares norte-americanas em países vizinhos, residentes no Golfo Pérsico.

O conflito deixou de ser apenas uma disputa diplomática e se transformou em um impasse estratégico sem solução aparente. De um lado, o Irã insistia em manter seu programa nuclear como símbolo de soberania nacional. Já do outro, os Estados Unidos e seus aliados declaravam que não permitiriam avanços que pudessem aproximar Teerã da capacidade de produzir armas nucleares. 

À medida que a crise se aprofundava, seus efeitos ultrapassavam as fronteiras dos dois países, e o ponto de virada, que cercou o mundo com uma facada no coração dos governos ocidentais e asiáticos, ocorreu quando o Irã decidiu utilizar uma de suas armas mais poderosas: a geografia.

O Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do planeta, foi fechado. A maioria do petróleo e gás importados do Oriente Médio agora passou a ser barrada, e todos os países, principalmente a China e os europeus, perceberam que o conflito no Oriente Médio poderia ser a peça que faltava para um colapso global acontecer.

Petróleo e gás são os pilares da economia moderna. Os elementos considerados insubstituíveis, por serem as principais fontes de energia para transporte, eletricidade e processos industriais, teriam que vir de rotas alternativas, mas de onde?

De repente, não era apenas a economia americana que enfrentava dificuldades. Países da Europa, da Ásia e de diversas outras regiões passaram a sentir os efeitos da guerra no Oriente Médio. Tudo dentro do país encareceu: gasolina, fertilizantes ou produtos secundários; a inflação cercou as autoridades locais e o povo começou a questionar a gestão dos respectivos países.

Um ciclo que certamente atribui vários prejuízos internos a um governo.

Onde buscar o socorro em meio ao caos causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz? Uma das opções viáveis seria a Rússia, que também exporta petróleo e gás, mas isso seria inviável para a Europa, já que os europeus apoiam a Ucrânia durante o conflito no Leste Europeu, que tem acontecido em paralelo à guerra no Irã; e para a Ásia, como aliados dos Estados Unidos, seria dramaticamente ofensivo aos Estados Unidos se a China formatasse uma aliança comercial com os russos.

Então… para onde correr?

Em resumo, o cenário atual conta com pontas soltas que ainda não foram resolvidas e permanecem atingindo a economia global. Os Estados Unidos não permitirão que os iranianos enriqueçam urânio (matéria-prima de armas nucleares) além do aceitável para fins pacíficos, e o Irã, por outro lado, não tem desistido do seu programa nuclear e também permanece apoiando redes e grupos terroristas.

E isso nos leva a uma segunda questão.

A guerra no Oriente Médio não é apenas um conflito; na verdade, é um emaranhado de intrigas, sejam elas internas ou externas, que no momento não se localizam apenas na região do Irã.

Aliados ou inimigos?

Apesar de as tensões se intensificarem e das escaladas de violência e mortes, um cessar-fogo em prol da paz foi proposto pelos Estados Unidos. Um respiro em meio ao tsunami de caos. Mas, paralelamente à disputa entre iranianos e norte-americanos, outra guerra já consumia a região. 

O confronto entre Israel e Hamas, que, apesar de resolvido, desencadeou novas tensões envolvendo o grupo terrorista Hezbollah, apoiado pelo Irã e considerado inimigo declarado do governo israelense. 

Em 2023, ataques realizados pelo Hezbollah na fronteira israelense — sinal de apoio do grupo ao Hamas — trouxeram como uma resposta israelense uma sequência de confrontos que se estenderia pelos anos seguintes, no sul do Líbano (onde os radicais se encontram).

Mas o que o conflito entre Israel e o Hezbollah tem a ver com o cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos? Pois então, a trégua até poderia acontecer, e os iraninos até estavam dispostos a acordar com a paz, mas Israel precisaria parar de atacar o Hezbollah.

Ou seja, a paz no Oriente Médio é a estratégia de vitória para o Irã e seus aliados terroristas, já que os Estados Unidos não podem sair da guerra por um orgulho da soberania nacional e não têm conseguido encontrar termos suficientes que agradem às autoridades iranianas a fim de conseguir encerrar o conflito.

Entre as posições aparentemente irreconciliáveis, o Oriente Médio permanece preso a um ciclo de confrontos, alianças e rivalidades que tem desafiado qualquer solução simples. E, enquanto isso, o mundo se acomoda com as mãos atadas e assiste às suas alternativas para a paz se desgastarem como ferrugem.

Sinceramente, qualquer passo que inflame uma faísca em meio ao querosene é devidamente evitado pelos líderes de Estado.

No fim das contas, o mundo ainda não chegou a conhecer a paz permanente, apenas soluções interinas, que surgem e desaparecem com as muitas batalhas. E o sentido da humanidade, então, passou a se valer apenas na tentativa de sobrevivência multilateral aos conflitos que rodeiam a sociedade.

Consequências ao bolso do brasileiro

E onde o Brasil entra nessa história?  Mesmo distante dos territórios atingidos pelos bombardeios ou das balas perdidas, o brasileiro tem sentido os reflexos do conflito no Oriente Médio sempre que abastece o carro, faz compras no supermercado ou observa o aumento gradual dos preços em geral. 

Assim que o estreito de Ormuz foi fechado, o preço do barril de petróleo subiu, então o Brasil precisou se reinventar com as opções nacionais, como o biodiesel. Mas não tem como fugir das disfunções econômicas que o conflito gerou. Os custos de transporte subiram, assim como os de combustíveis.  

É um efeito dominó que alcançou empresas, comerciantes e consumidores.

Além disso, o ramo agrário também foi prejudicado com os desafios que se ergueram para a efetivação do transporte de fertilizantes para o território brasileiro. Com isso, os resultados aparecem nas prateleiras: alimentos mais caros, pressão sobre a inflação e uma redução gradual do poder de compra das famílias brasileiras.

No fim, ao observar o cenário como um todo, percebe-se que o entendimento geral se dá pela compreensão de que os dias da sociedade atual se resumem a construção de resoluções para os conflitos diplomáticos do mundo. Mas será quando os disparos cessarem e a fumaça desaparecer que restará apenas uma pergunta: será que chegará o dia em que a humanidade viverá dias sem o derramamento de sangue?


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